Entrei no banheiro não apenas pelo fio de sangue que desceu entre minhas pernas alvas. Entrei porque a festa já não me fazia sentido. Mesmo eu não querendo procurar algo racional naquilo.
Agarrei a latrina como uma bóia em naufrágio no alto mar ou um travesseiro confortante em cima de lençóis frescos e brancos. O cheiro de urina no ambiente me recolocou de volta à realidade. Não sei o que me deu mas passei a língua na louça, apreciei o gosto. Acre, nojento. Não conseguia abrir os olhos por completo. Enfiei os dedos entre minhas pernas. Umedeci por completo e com o indicador desenhei um coração na tampa do vaso. Vermelho vivo. Então merecidamente desfaleço.
Manhã clara, ajeito meus seios no que restou de um soutien. Destranco a porta do banheiro, ignoro a todos que dormem em meio ao chão. Acho uma cozinha, busco pó de café. Faço-o forte, sem açúcar. Saiu pelo corredor do prédio. No elevador um senhor estranha minha caneca de café quente. Ignoro-o. Então percebo que não é a xícara e sim minhas mãos ainda marcadas com o sangue ressecado.
O senhor sorri comportado. Eu devolvo o sorriso junto com a xícara vazia. Dou as costas saindo apressadamente do elevador. Pego um táxi e ainda foi possível ver o mesmo senhor tentando uma atenção minha. Viro meu rosto.
O motorista me questiona sobre algum destino. Demoro para responder, ele parece entender.
- Aeroporto por favor.
Busco na calcinha minhas últimas cédulas. No aeroporto me senti feliz. Vou ao saguão. Ana me aguardava. Óculos escuros, sorriso escondido. Mochila enorme nas costas. Vem ao meu encontro, me olha por inteiro. Se agacha. Toca minhas pernas, desce roçando e enfia suas mão por debaixo do vestido. Sobe calmamente e agarra minha calcinha e levemente a puxa para baixo. Observa a peça avermelhada, com cheiro forte, de fêmea. Ela a joga no chão próximo e segue para o embarque.
Não nos falamos por um bom tempo dentro do avião. Ana me olha, sorri umedece seu dedo no vinho e desenha um coração na janela.
Sorrimos.
O texto abaixo ainda está incompleto. É um texto difícil porque mescla ficção e realidade em doses não reveladas abertamente. Fiz uma promessa de coloca-lo no ar. Logo estará completo.
ATIRANDO PEDRAS NAS ESTRELAS
A fina camada de juízo que recobria minha razão achou de se despregar sem prévio aviso. Foi-se como uma luxúria mal vinda, mudança de cobra ou até mesmo como um corpo que se deu conta de não estar no seu habitat natural. Assim: frágil, trêmulo, este capengava amparado por escoro ou por sorte. Com as razões expostas, desprotegidas, vulneráveis a toda variedade do que consideramos os maus pensamentos. Porém o que vem a ser eles afinal?
Hoje sei que nunca saberei. Fortaleço-me daquilo que me atiça, que ínsita o bombeio do sangue, avermelha a pele e aviva os olhos. Secando o céu da boca, roçando a língua nos lábios, entreabrindo as pálpebras imitando felino em início de caça. O disparo, a corrida, quatro patas se alternando, cortando a virgindade do vento, açoitado por mata hostil, olhos no alvo. O salto! Cravada de dentes e garras. A luta da vítima o rolar no chão enquanto tudo é encoberto por poeira. Assim juntos como um só. O debater do corpo aumenta aquilo que tu supunhas extinguir. O Cheiro do suor, do sangue, seus arranhões intencionais ou não. Tudo avermelha minha íris. Então a calma, bonança. Mesmo assim finco meus dentes com mais força. Porque sempre quero. O que vem a ser os maus pensamentos afinal? Seus cabelos longos jazem em meu peito.
Falaram ao meu ouvido que a distancia fazia neblina nas lembranças mais fortes. Mentira. Mesmo com o Sol a testar meu limite e com o cheiro de gasolina a me lembrar das milhas que estão a minha frente sinto teu suor. Jogo a garrafa de água na minha nuca. Curto o prazer do momento. Tento tê-los aos montes. Curtos e constantes. Terapia insana.
Tanque cheio. Momento de reflexão. Estou em silêncio enquanto Augusto folheia um mapa carcomido. Nosso mapa. Puído, gasto, engordurado, faltando partes, riscado com grafite e tinta. Guardado em bolso, prensado por Jeans, molhado pelo púbis, esquecido pelas urgências e lembrado sempre que a estrada nos indica a solução; nosso Mapa.
- Quero um banho. Um banho e um bar beira de estrada. Uma Fêmea.
Não o respondo. Continuamos fitando o infinito. Então olho para ele. Ele corresponde, então olhamos para o chão. Nos demos conta. Ainda não tínhamos nos desligado dos cabos, fios e condutores. Tudo aquilo ainda se arrastava atrás de nós como carga de pecado, entojo nojento atolando nossos quereres, almejando criar nova camada de razão. Aquela da qual nos livramos ainda há pouco.
Quando o carro acelerou estava agarrado à cabeceira do banco, fazendo o que nunca gosto: olhando para trás. A estrada é diferente quando vista desta forma. A listas no asfalto brotam em vez de serem tragadas. O rádio chiava já há algumas horas. Nenhuma estação sintonizada. Vontade de não ouvir voz humana. Daí, talvez, o porquê daquele silêncio. O capô do carro tremulava, parecia querer despregar. A velocidade sempre foi uma paixão do Augusto. Não apenas ela, mas tudo que lembrasse a passagem rápida, o desafio ao tempo. Cheiro nos dedos a pasta de insetos esmagados que tentei tirar do vidro. Nojo e asco. Mas, válidos porque o Augusto mostra um sorriso perdido. Ele ainda está por aqui. Tranqüilizo-me e tento adormecer no banco.
A porta do carro só foi aberta com forte empurrão. Vejo então uma pessoa determinada. Rindo, e isto me deixa intrigado. Teria dormido tanto assim?
_ Este bar vale a pena. Pegue a sacola.
Então tento me localizar. Já é noite. Terra de chão batido, fios que teciam a rua com lâmpadas amarelas balançando com brisa leve. Atraindo toda sorte de mosquitos para voar ao seu redor. Céu estrelado. Cheiro de sereno, gostoso, frio, forte. Encho meu peito. Prendo o ar. Solto pela boca, ritmado. Ajudado por melodia que provinha daquilo que o Augusto há pouco chamou de bar. Candeeiro a gás chama forte e fumaça preta que tremulava toda a parede. Nos escoramos no enorme balcão de madeira, sondando.
Então não mais que de repente ela passou rápida, saindo por detrás do balcão onde estávamos para entrar por uma portinhola lateral, sumindo. Mas foi o bastante. Foi um bastante por ser uma fêmea. E este tipo de beldade não precisa se mostrar tanto. Ela não marca pelo que supostamente se vê. Ela atiça outros sentidos bem mais nobres. Alavancados pelo subconsciente. Berço daquilo que a razão não alcança. Onde somos puros e temos a herança de todas as nossas existências passadas. Onde só há o que importa. Pedra a lapidar. Onde estaremos quando nos cansarmos de tudo que no momento julgamos ser, e que na verdade não damos a mínima.
Fitamos as saídas, olhamos novamente para a porta por onde ela tinha entrado. Parecia ensaiado, duas cabeças se movimentando harmoniosamente ao leve som de chegada de passos. Viradas rápidas, olhos atentos. Onde estaria a fêmea?
_ Já pediram algo?
Está em nossa frente. Olhos de caramelo, isto eu me lembro muito bem. Orelhas curtas, brincos baratos, artesanais, esféricos, azuis. Ornamentavam sua orelha. Pareciam assim pérolas fictícias. Lábios. Ali estavam algo a se temer. Carnudos sem serem volumosos, largos na medida em que limitavam os contornos de sua face. Os cabelos encobriam grande parte do rosto, meio assanhados, carentes de penteio se moldavam pela vontade do vento. Eis o motivo de serem naturais. Encaracolados ao limite do assanhado. Um vestido de algodão, quase sem cor, com cheiro de sabão de coco, mal passado, com uma generosa abertura nos seios. Que pele morena! Seu andar maltratava o tecido do vestido, os mamilos eriçados riscavam sua frente, hora em movimentos verticais, hora na horizontal, cadenciado, tentando seguir o bambolear de suas ancas. Mas todo o conjunto bailava em perfeita harmonia nestes exercícios. Tal qual valsa ensaiada. Entretanto a nobreza e a perfeição provinha unicamente da naturalidade do corpo. Nascera daquela forma, estava bruto. Tudo da cabeça aos pés obra pura e imaculada da natureza. Que fêmea!
Sabíamos disto. Estava muito cedo para algo deste porte. Estávamos acostumados a uma cadência dos acontecimentos. Um enredo, um momento certo para tudo. E aquilo parecia como que se o filme iniciasse com todos os eventos principais na primeira cena. Sem brincar com o suspense ou usar de artimanhas de enredo para construir cena. Ora, como estávamos carentes de vida! Seguindo uma velha fórmula daquilo que artificialmente tentava imitá-la. Tal qual atrações televisivas, romances de rádio, ou historietas em livros baratos, que apodrecem nos sebos. A vida pode até beber deste tipo de água imunda. Mas não se mantém disto.
Ela se abaixa próximo à mesa de clientes na porta. Curva-se, o vestido desobedece à gravidade, levanta um pouco. Os homens que a rodeiam na mesa se curvam mais ainda, fungam, suspiram, olhos saltam. Instintos tão básicos que negá-los seria, isso sim, pecado.
_ Vamos sentar. Fala o meu amigo.
Como negar? Há muito Augusto é apenas desejo. Conheço bem como tudo se inicia. Entretanto com ele meio e fim será sempre uma incógnita.
Três garrafas eram três garrafas. Recontava-as como se estivesse diante dos maiores desafios aritméticos já enfrentados. Meus olhos me traiam, estavam ofuscando, multiplicando os vultos. Meu hálito estava quente, me escorava nos cotovelos e contava novamente as garrafas na mesa. Eram três.
A vista melhora. É; é a morena que esta diante de mim, sentada rindo. Dentes alinhados, perfeitos. Ela explica novamente como tecer a palha para confeccionar um cesto de roupa. Voz calma, cadenciada, dicção mais que perfeita. Pausas lentas para avaliar o que foi dito, para olhar os ouvintes, dentro dos olhos e rir, rir levemente, rir sem ruído como se agradecesse a atenção e continua a falar. Suas mãos vês ou outra enfatizavam o dito, bailavam pela extensão da mesa e pousavam próximas ao busto. E como toda fêmea, ela queria saber se as almas estavam não apenas ouvindo, mas sendo vitimadas pelo seu torpor natural. Então ela inclinava o corpo para frente, o vestido se afasta e seus seios vinham respirar. Suas formas se mostravam, sua voz sumia e todo o bar escurecia. No mundo só havia aquela imagem. Eu poderia desenhar seu contorno de olhos vendados.
O Augusto está em silêncio, ouvindo cada palavra. Imóvel, apresentando estar totalmente imune ao torpor da fêmea. Quando na verdade não estava. Era uma tática de caça, algo que ele se armava para demonstrar algum tipo de imagem sua que gostava. Somos todos assim, no intuito de conquistar o que queremos nos transformamos num eu regado das qualidades que ambicionamos tanto. Mas as fêmeas sempre sabem disto. Ignoram, colhem aquilo que talvez nunca saberemos. Elas afastam com as mãos toda aquela fantasia que criamos para surpreender e colhe justamente o que não damos a menor importância. Augusto diria: Que graça tem nisto? Verdade. Acredito que a fantasia tem seu poder. E acredito mais ainda que é nela onde encontramos o berço de toda a realidade. Aquela pessoa à nossa frente era real, táctil, mas nós enxergamos mais. A vemos como única naquele espaço. Personagem principal do momento. Peça chave para nossos próximos atos.
_Vocês sabiam que existe uma história bem antiga de que esta cidade brotou do rio Tacaroá? Com o tempo e deslizando na lama toda a vila veio para estas paragens. E trouxe com ela todos os pirilampos que voavam nas margens. É por isso que à noite temos dois céus estrelados. Um que não sai do lugar, outro com estrelas que ascendem, apagam, mudam de lugar, somem aparecem. Muitas, ao mesmo tempo.
Augusto olha pra mim com ar de questionamento. Onde estaria a menina que ainda a pouco estava nos ensinando a confeccionar cesta de palha? Ele escora a cadeira em duas pernas.
_Verdade? Minha avó falou que fadas sempre se misturam entre os pirilampos para passarem despercebidas. E que estas não são nada mais que formosas moçoilas que fornicaram em pé, roçando em tronco de arvore com ciganos de passagem em suas vilas.
A morena paralisa um pouco, olha no fundo dos olhos de Augusto. Face de questionamento. De estudo. E, como as fêmeas sempre podem, tudo seria possível a partir daquele momento, pois suas feições não revelam nada do que estar por vir. Mas... Ela ri. Baixando a cabeça um pouco depois olhando para os lados, ri.
_Não conheço esta história não. Dito isto ri novamente.
A morena apenas aceita as palavras carentes de juízo do Augusto. E este secando mais um copo ri. Ele sabe que esta aceitação é a porta de entrada para que ele dê vazão ao que quer que seja. Pelo menos ele imagina isto.
_Preciso terminar meus afazeres, licença.
Ela levanta-se, mas a mão de augusto paira sobre a dela. Mas sou eu quem falo.
_Quando terminar vamos a busca dos pirilampos?
Ela olha para o Augusto, este se encontra ainda com a mão sobre a dela. Mas em silêncio. Então ele retira. Ela olha em volta como se avaliando o quanto o bar ainda está movimentado. Olha para mim...
_Pode ser.
Sai sem olhar para trás e logo se atarefa no serviço de atendimento ás mesas. Entre estas outras moças se revezam na tarefa. Mas nenhuma é como nossa morena.
_Buscar pirilampos? Mas que bosta é essa?
_Ela disse que vinha. Não disse?
Estou sorrindo. Em verdade o Augusto está irritado por ter sido com minhas palavras a aceitação da fêmea. Entretanto bem sei que embora ele acredite na fantasia como alicerce de tudo que fazemos, ele também impõe alguns limites. Ou seja, não apetecia em nada a idéia de caçar pirilampos mata afora. Por outro lado após meditar um pouco, ajudado por alguns goles ele sabia que o fato é que ela iria conosco. A sós.
A hora seguinte foi silenciosa. Assistimos as pessoas ao nosso redor, seus trejeitos e forma simples de conversarem, de falarem da roça, do céu com ares de chuva da parteira que visitou fulana e talvez de duas figuras desconhecidas que apareceram não mais que de repente no barzinho da vila. Dois jovens no mínimo estranhos. Mas eram discretos. Não notamos olhares apontados para nós.
Não ela não quis ir dentro do automóvel, não gostou da idéia. Mas Augusto ainda tentava convencê-la. Foi inútil. Eu fui andando com ela enquanto Augusto partiu na frente pela estrada empoeirada. Peguei um garrafão de vinho que a fêmea nos presenteou, sem rótulo, uvas pisadas no quintal, fermentada em bacia de madeira com borra doce. Vinho bruto, macerado. De se beber pelo gargalo.
_Para onde vocês estão indo?
Pensei que esta pergunta nunca mais fosse feita. Porque nunca me senti à vontade com ela. Tão abrangente e ao mesmo tempo tão simples. Para onde vamos. Onde iremos chegar. Frases simples, de prosseguimento de conversa daí eu sempre me questionar o porquê dela sempre me incomodar tanto.
_Estamos indo para o sul, mas ainda vamos decidir.
Sim, estou pensando em voltar a postar no Blog. Isto exatos 1 ano e 3 meses depois.... Estou agora apenas colocando as duas partes restantes do conto "ALÉM DOS TEMPOS DA BRILHANTINA" Que já tinha sido escrito no mês de abril de 2004. Mas foi retirado e agora resposto.
No mais... logo logo eu volto.
ALÉM DOS TEMPOS DA BRILHANTINA ( PARTE II )
MESA REDONDA
Penélope um dia sonhou em ser miss 1990 do Colégio Albertino de Jesus, conseguiu
honroso segundo lugar. Criou ali naquele momento algo que a segue até hoje:
Um conjunto de: determinação, vontade e o uso aprimorado de suas qualidades
em entender as pessoas. Durante anos achou que esta forma de conduzir a
vida poderia ser a "chave" para a palavra que todos almejam: felicidade.
Ativou seus sentidos, os seis, e viu a linha do certo e do errado mudar
de lugar, de cor, de tudo. O mundo entregue em suas mãos era cinza, e ha
muito ela tenta pintá-lo a seu desejo. Hora pensa que lhe falta amparo,
hora pensa que ela é que está tentando ver tudo deturpado. Dia após dia
ela se desconhece mais ainda; e ao entrar no seu quarto a tarefa mais difícil
do dia é encarar o espelho.Hoje sua preocupação é outra todos estão na mesa
da cozinha; o ar é pesado. Penélope treme segurando a colher de chá na mão.
Ha tempos já mexeu seu café e nada bebeu. Todos já sacaram, ela está nervosa,
está formulando idéias e com certeza está querendo comer um vivo.
- Vocês sabem o que a porra do quarto dos fundos significa! Sabem da importância
do cômodo. É o quarto que recebe mais Sol, é o quarto mais isolado e é o
quarto onde cultivamos nosso jardim particular. Jardim este que sustenta
nós quatro. Porra gente, eu posso saber o que é que um filho da puta ta
fazendo dormindo lá? Porque não sei se vocês sacaram mas, filhos da puta
também podem denunciar a gente, filhos da puta também podem fazer parte
de alcagüetes de quadrilha e principalmente filhos da puta podem pedir "favores"
para continuarem filhos da puta de boca fechada.
O silêncio a seguir não mais irrita Penélope, ela já o esperava. Na verdade
aquele que revelasse ser o responsável estaria fora da casa. E isto por
mais merecido que fosse abriria uma ferida nova naquele lar.
Campainha toca, corações disparam, 07:30 da manhã. Visita de Lininho foi
esquecida devido ao acontecido. Mabeu confere olhando pelo olho mágico.-
É Lininho. Fala ele quase inaudível. Penélope ajeita o cabelo e se transforma
na mais tranqüila das pessoas. Lininho é atendido:
- Mina, cês precisam monitorar as ruelas. Manos d'olho gordo ta por toda
parte. Aqui ta o faz me rir da semana. mantenham o mesmo adubo quis os playboy
tão curtindo.
(tradução) Garotas, fiquem de olhos abertos nos corredores do prédio. Tem
gente espionando nas redondezas. Aqui está o pagamento semanal. Mantenham
a mesma técnica de plantio pois está satisfazendo os clientes.
Lininho sai do cenário rápido. Penélope averigua se ele já sumiu mesmo e
informa. - Ok Carol, tudo bem.
Carol aparece no corredor e e abre o cano da calibre doze retirando os dois
cartuchos nunca usados. E é assim que todos querem que continue. penélope
de costa para todos delega então as funções do dia: -Carol, ta na hora do
cursinho, hoje você tem simulado. Mabeu, distribuir os flyers, Kika pegar
no tranco diga a seu chefe que aceita. Paty, se desintoxique que você vem
comigo tratar do gerador de energia para a Rave.
Em quinze minutos o apê está vazio. Todos incorporaram seus personagens,
já o fazem inconscientemente. Vestem a roupa, absorvem os inconcebíveis
como quem tem o dever de escovar os dentes diariamente. Assim aprenderam
a estar de pé a todos os dias, a enfrentar os seus supostos limites e mais
tarde descobrir que eram ali que eles iniciavam. Ao se desligarem de tudo
desta forma muitas vezes deixam coisas esquecidas, que se perdem no tempo.
15:00 da tarde. A janela do 804 quadra D Bloco F chama a atenção do zelador
Sebastião que olha para cima e se depara com um cara gritando.
- Estou preso aqui no apê, sem ninguém. Manda alguém me ajudar por favor!
Tudo que Cristóvão, a versão pós moderna de esqueceram de mim, deseja saber
é onde estão suas roupas e principalmente onde ele está e como foi parar
ali.
ALÉM DOS TEMPOS DA BRILHANTINA (III)
O LADO CLARO DA LUA. (parte final)
Laranja, violeta, lilás. As estalactites realçavam as cores, um grande rodamoinho
de luz fazia o teto do salão da caverna parecer a entrada do hipotálamo
de um insano. Este salão, descoberto pelos mineradores quando da busca das
pepitas, era o palco central da rave. As bebidas eram servidas nos túneis,
iluminados com multi cores, tudo tinha que ser luz naquele mundo escuro
o som bate estaca ameaçava despregar o teto, mas nada caiu de lá. O gerador
de energia estava firme e os mais de 400 convidados presentes iriam garantir
o pagamento de seu aluguel. Fora os que se perderam pelos caminho. Estes
não deixavam em paz o celular da Penélope pois ouviam o som, mas não sabiam
de onde vinha. E era verdade. A caverna, a 40 metros do solo, propagava
o som por uma extensão enorme de terra e muitos agricultores naquela noite
rezaram pedindo para que o demônio voltasse para debaixo do chão. Com razão,
o tum,tum,tum que vinha de lá parecia o cavalgar da besta. E Mabeu era o
DJ principal, óculos com raios de fino laser apontavam para alguém e este
tinha que fazer uma performance. E na sua vez a Paty derrama o licor de
menta em seu corpo e convida a todos para lamberem e se vê enxugada por
dezenas de línguas vorazes que bebem menta e suor ao mesmo tempo que a agasalham.
(Além do amanhã I) - Paty sentiu uma língua mais fervorosa, mais caliente,
mas determinada. Esta era a de Dirceu, dono de uma rede de aluguel de automóveis.
Os dois se perderam pela mata procurando sapos. Contaram estrelas, fizeram
sexo em cima do capô de uma BMW e o rasgaram por completo. Em 2005 Dirceu
revela que o motivo de tela conhecido na noite da Rave foi a Penélope que
tinha falado mil maravilhas dela. Em 2007 se casaram no civil e desde então
estão viajando pelos lugares mais inóspitos. Paty já não consome tanta droga
como antes.
Penélope sobe no barranco, fica de frente para o salão. Mabeu aponta o canhão
de luz para ela e informa para todos saudarem a rainha da festa. E grita
olhando para ela. -Penélope, eu te amo! Penélope dança e solta um beijo
de mão para Mabeu, seu fiel companheiro.
(Além do amanhã II) - Zurk 48, conhecido DJ londrino está hipnotizado pela
desenvoltura do Mabeu e este explicou ao britânico que o segredo é captar
o êxtase do público, a música tem que ser uma continuação do estado da platéia,
ao mesmo tempo que faz um papel alucinógeno, instiga os batimentos cardíacos
e então você tem a galera nas rédeas e conduz como desejar, explica o Mabeu.
Seis dias depois Zurk e Mabeu estão em Londres na 103 Gaunt Street dentro
da Ministry of Sound. Mabeu enlouquece todas as raças do mundo reunidas
no gigante espaço. em 2008 Mabeu descobre que Zurk tem um caso com o baixista
da banda "The Police 2001". Resolvem os três dividir o mesmo teto.
(Além do amanhã III) - Kika faltou à festa pois teve que fugir com seu chefe.
Este abandonou mulher e dois filhos. Em 2006 Kika já contabiliza 18 espancamentos
do recém marido. No último ela deslocou o maxilar. Agosto de 2007 a policia
desiste da procura do corpo de seu esposo. Em 2026 em uma aula de culinária
antiga com amigas da alta sociedade paulistana, ao ser questionada sobre
a trabalhosa tarefa de moer carne para os canudinhos de uma festa beneficente
ela fala: -Experimentem moer uma marido! Ninguém entende a piada mas riem
em respeito à colega. PS- O moedor foi presente de Penélope.
(Além do amanhã IV) Bankei Dimpamkara Shrijnana, indiano convidado de Carol,
está sem palavras com a alegria em sua volta. -Este é a essência do AYATANA!
Exclama ele alterado. E completa:
- Este é o segredo da SVABHAVA, minha querida amiga. Quando conseguirmos
fabricar em quantidade industrial mudaremos o mundo! O amor se perpetuará!
Em 2007 Bankei ganha o prêmio Nobel de química com seu composto milagroso
no tratamento da esquizofrenia, do stress e do impulso raivoso. A droga
foi carinhosamente apelidada de Carol em homenagem àquela que o apresentou
as primeiras fórmulas. Carol nunca revelou à amiga Penélope que tinha feito
ela de cobaia do seu experimento quando às vésperas da rave ela trocou os
comprimidos de ecstase da colega pelos seus protótipos pois sabia que um
dos efeitos colaterais era a amnésia total das últimas 24 horas. Foi dificil
manter a seriedade na mesa redonda vendo sua amiga interrogar a todos. Quando
lembra disto ri em seu Monsteiro.
03:00 da manhã o celular de Penélope toca mais uma vez. Ao ver o número
ela atende. Diz ao telefone que podem executar o sujeito com um detalhe
que façam o mais devagar possível. Desliga o celular, olha em volta procura
a todos os conhecidos e suspira. saudosismo nunca foi seu forte. Da a volta
e some do lugar. Para alguns será para sempre.
(Além do amanhã V) Lininho é surpreendido na boca de fumo da favela Acordeom
três elementos o agarram colocam no saco e o levam ao lixão da Borborema.
Lá, conforme pedidos da mandante, dão um tiro no seu reto. Neste método
ele so vai morrer mesmo dali a 10 horas. E é gemendo e espantando os urubus
que vem lhe bicar que Lininho passou suas últimas e longas horas.
(Além do amanhã VI) Na noite da rave Cristóvão não está presente, nem fora
convidado. está em um barzinho classe média do sul da cidade na companhia
de seus amigos de copo. mesinha cheia já desistiram de pegar mulher na noite
estão colocando o assunto em dia quando o Cris fala da sua última aventura:
- Ela era ruiva, olhos azuis, olhos fortes. Decididos mesmo quando falava
calmamente a doçura da voz ecoava como que um mandato solene.E como era
linda! Impossível de não obedecer. Tirou um comprimido azul da bolsa, acho
que era um ecstase. Quando engoliu...Cara...ela se transformou, queria fazer
parte de mim. Até então so tinha feito sexo em minha vida, naquela noite
fiz amor, amor mesmo. Se ela pedisse para casar correria dali para comprar
as alianças. Suas mãos me conduziam, me paravam me buliam, tudo nela me
dava prazer, do seu hálito às suas formas, das suas palavras ao seu bambolear.
Ela me levou para o seu apê todo escuro, sem ver nada fui pregado no teto
de todos os meus limites. dai então so sei que acordei em um quarto todo
fechado com uma janela gradeada em uma cama com lençol de cetim cercado
por pés de maconha.
Os colegas caem na risada. - Puta droga foi essa que você tomou? Ah,ah,ah.
-É verdade! Juro! O nome dela era...era...Penélope, eu acho...
---------
O Comandante informa a altitude de 33 mil pés e atenta para a estrela Dalva
brilhante no horizonte violeta que se delineia. Penélope a segue com os
olhos. Lembra-se de muita coisa entre elas do concurso do Colégio Albertino
de Jesus. Aquela menina ainda existe, tão decidida e cheia de vontade como
antes. Um sorriso em seu rosto é o mais puro reflexo do seu futuro e que
pelo menos este fique como uma incógnita para que todos imaginem e emitam
boas, ótimas energias para ela.
ALÉM DOS TEMPOS DA BRILHANTINA (PARTE I) MAIS UM DIA...
06:00 da manhã, São Paulo; capital. O Sol parece que saiu. Em uma das milhares de ruas, veias do sistema, um prédio já esta na ativa ha horas. Menos no apê 804, Quadra D, Bloco F. Lá o dia está começando como de costume: Com o Som do despertador e seu arremesso para cima do guarda-roupa. Penélope desprega as remelas dos olhos e constata: Mais um dia. E se for igual aos outros ela aguarda mais um festival de leis de Murphy organizadas para irem acontecendo de uma forma que ela não consiga evitar.Porra. Pensa ela. O quarto é o cenário da passagem de um tufão. Não perece que 4 garotas o dividem. Ou parece? Diante do "corpo" da Paty, que novamente tentou chegar à cama mas desfaleceu antes, ela atira o monte de roupa que já conseguiu tirar do chão.
-Levanta porra! Paty ignora.
Kika está de pé, passando álcool destilado na inflamação do seu último piercing, no olho direito. Suspeita desde ontem que não consegue mais abri-lo normalmente, apertaram muito. No fundo do quarto Carol se concentra fazendo seu Mantra predileto o Om. Formado pelo ditongo das vogais 'a' e 'u', o som irrita o já pre-irritado dia de Penélope, que solta seu "mantra" predileto: - Cala a boca porra!
Interruptor por interruptor a Penélope vai iluminando o apartamento, abre a porta do quarto totalmente grafitado para acordar Mabeu, o único do sexo masculino da casa. E este, como se aguardasse o momento, já sai da cama eufórico.
-Chegaram os Flyers da Rave "O lado claro da Lua". Impecável a confecção gata! Material de primeira, coisa de quem entende!
Penélope pega a caixa com os convites fazendo pouco caso e parte para o que interessa: - Onde estão os setenta comprimidos de E?
- Tá na mão gata, vamos desovar tudo na festa. Tenho certeza disso.
Mabeu tem um tique nervoso que o faz levantar o ombro repentinamente toda vez que fala algo do qual não tem certeza. Penélope sabe disso e o ignora o dito do amigo com um olhar de rejeição. Então avalia atentamente o Flyer e solta o...mantra: -PORRA!
Mabeu se assusta, com certeza alguma merda sua da qual ele não faz idéia. - O que foi gata? Pergunta.
- A porra do endereço Mabeu! O 'porrissimo' detalhe da porra do endereço! Como a galera vai achar a porra do local da Rave?
Mabel explica, ou tenta. - Gata, o bom das Raves não é procurar o local? Parece que não saca as coisas!
Penélope avermelha os olhos, sem nem ter bebido, sem nem ter viajado. - Mabeu, meu querido acéfalo de merda! Você se lembra que a porra da Rave é em uma mina abandonada? Como porra a galera vai achar a bosta de um buraco no interior de uma mata?
Carol entra na cena com uma questão:
- Penélope, que é o cara pelado com uma tatoo de tridente na bunda que está dormindo no quarto dos fundos?
Penélope pensa para si mesma: Mais um dia....
Sim, mestre de cerimônia. Filho de ciganos europeus de nomes exóticos. Apresentadores da arte, descobridores de prazeres que cabem perfeitamente nas cidades em que visitam. Ele via o inicio do século como a época do rir. Esticava os suspensórios e os soltava num estalo. E vinha a grande gargalhada do seu rosto rexonxudo. Sentava e tirava sua cartola, coçava o queixo pensativo olhava no fundo dela e sorria dizendo: - Samanta, a leoa, terá cria ainda este ano. Verificava novamente no fundo da cartola. - Será um leãozinho! Sorria. Circo nenhum conseguiu isto! Se vangloriava. Eu ficava maravilhado. - Posso ver? Suplicava alegremente. - Ora pequeno, você terá a sua. Alimente sua paciência com riso. Sempre.
Seus olhos notaram meu descontento. Se agachou para me falar. - Muito bem abra sua mão. O que vês? -Nada. Respondi. Sua fisionomia é de espanto. -Como nada? Se não queres ver nada que posso fazer? Coloco a palma encostada no rosto..nada. Ele pega minha mão e indica uma linha que a corta de ponta a ponta. Informa sorridente. -Ora, não seria isto aqui a linha de sua vida? Arregalo os olhos com espanto. É? Pergunto. - Ora se não! Rebate ele e continua: - Cinco linhas cortando-a? Cinco desejos que serão satisfeitos. Cinco caminhos que poderá trilhar, cinco brinquedos que poderá pedir, cinco mulheres que irá conhecer. Está tudo aqui em sua mão não vê? Ainda incrédulo olho mais atentamente, as linha estava ali. Nisto ele tinha razão. Curioso pergunto: - E estas outras linhas? -Ora não posso te dizer tudo. Ele respondeu. Desconversa aumentando a chama do candeeiro. O circo se foi deixando panfletos nos postes e saudades naqueles que gostaram. Quando eu estava no segundo desejo, no terceiro caminho, no quinto brinquedo e na terceira mulher, eis que reencontro o mesmo circo em uma cidade de nome exótico. Persigo a risada costumeira mas encontro outra face. Ele se foi no meio de uma grande gargalhada informa o novo mestre de cerimônia. Pergunto pela cartola e ele me leva a uma tenda onde abre um baú de mogno. -Guardo tudo de meu pai aqui. Disse ele me entregando a cartola. Olho em seu fundo e este é revestido por um papel laminado, dourando, gasto, mas que ainda consegue refletir meu rosto. - O que podes ver é tudo que tu precisas. Informa o mestre de cerimônia ao meu lado. -Ele sempre me dizia isto. Completa.
Consegui ficar com a cartola. Cortesia de alguém que ficou cativado pela minha história. E assim também consegui meu terceiro desejo. E foi conversando com a quarta mulher que a usei pela primeira vez. - O que vê?? Questiona ela não se contendo de curiosidade ao me ver olhando ha um bom tempo o fundo da cartola. - Vejo a pessoa mais feliz do mundo! Respondo com leve sorriso.
- Mais feliz do mundo? Qual seria o motivo? Ela questiona.
- É que ele acaba de encontrar a razão para muitas coisas.
- Desejo ver também! Ela pede. -E então o que você vê? Pergunto com a mesma euforia. Ela sorri. - O mesmo que você e com o mesmo motivo.
É ASSIM QUE EU VEJO AS COISAS (Segue um dos vários contos do baú. este ia ter duas partes. Mas joguei ele todo. Dedico, além dos leitores, À Princesa.)
Ana Lucia. Lucinha para os que compartilham de sua intimidade. Seu sorriso, com a face levemente abaixada, seus olhos fortes e diretos. Não me lembro de nada mais esclarecedor. Poucos sustentam este olhar que despe a alma. Calma, cândida, sutil e esmerada poderia passar bom tempo elogiando suas qualidades e o faria mesmo ante o rubor de seu rosto pois em meu peito repousa um querer enorme por esta pessoa. Nesta pequenina cidade situada nas entranhas das planícies em que a pena, que escreve a historia lida, nunca fora usada é onde preenchemos o tempo que nos foi doado e o transformamos em vida. Mais que minha amiga, ela é minha motivação para tudo. E quanto mais gostamos de alguém desta forma, mais ganhamos a capacidade de nos doar. E ha muito já não mais me pertenço. Dizem, e acredito, que tudo de bom que construímos nos retorna em dobro. Não tem como não acreditar nisto. Existem também os que dizem que tudo neste mundo tem dois lados e a construção de um deles nos faz ignorar o outro como se este não fizesse parte do todo. Assim como existem o bem em igual quantidade e força existe o mal, bem ao lado. Muitos buscam a verdade e para alguns o castigo pode ser encontra-la. Nisto os males comprometem nosso entendimento das coisas, das leis ou daquilo que você usa para nutrir a fé e a esperança. Dão nomes como tentação e provação. Porém pode ser apenas o caminhar das leis que ainda não compreendemos. Quando Lucinha perdeu o riso de sua face por um bom tempo deixei a ação do tempo consertar, tudo haveria de retornar ao que era antes pois simplesmente não haveria motivo para ser do contrário. Esta era minha fé e também minha parte de ignorância. Dor era tudo que me desmontaria em vê-la sentir e talvez por isso ela se privou tanto de demonstra-la e quando o fez é porque não dependia mais de sua vontade. Por meses rodei todas as cidades em buscas das ervas prometidas, e da ajuda dos conhecidos tive acesso a todos os médicos da região que a visitaram e não conseguiram dar nome ao mal. Vergonhosamente em minhas orações desejei sua partida rápida apenas para que cessasse o tormento em seu ser. Ignorei desta forma todo o tempo que ela se mantinha viva, toda sua força de vontade em aqui permanecer. O que mais temia é que tudo aquilo fosse absorvido, aceitado e se transformasse em rotina. Nós humanos, quando assolados por um mal em um longo tempo os fazemos parte de nós. Isto estava longe de mim, estava preparado a desafiar o desconhecido, transgredir minhas crenças pois acabava de perceber que a solução não estava ao alcance daquilo que tinha ciência de ser meu mundo. Quando tomamos esta decisão abrimos uma porta da qual nunca mais poderemos fechar. É como a busca do conhecimento e da verdade.
- Zilda Mazasheh. É este o nome ao qual ela responde.
Pedro, meu amigo, me informa a notícia como quem dá mais uma esperança. Zilda, uma idosa que além de conversar com as árvores, cantava músicas com palavras desconhecidas. Não seria necessário dizer que a julgavam sem juízo. Mas não era por isto minha vontade de vê-la e sim pelo que ouvia quando criança: "Velha Zilda, mãe da terra, sabe de tudo". Adentramos a mata pela manhã. Embora o caminho fosse desconhecido sentia em meu peito que este encontro já se dera a muito tempo e agora iria "acontecer". Nos perdemos, nos desolamos, e foi no que julgamos retorno que achamos sua cabana com cheiro acre. Entramos sem avisar pois não havia porta trancando a entrada. Uma senhora estava deitada no chão batido. Braços e pernas juntos, imóvel.
- Pensem bem o que vão perguntar.
Disse ela sem se mover. Pedro cochicha ao meu lado pedindo que não desperdiçasse palavras. Estava envolto em medo e apreensão.
- Me diga como aplacar o sofrimento de minha amiga.
- Me diga você, o que mais gosta em sua vida? Indagou ela abrindo os olhos.
Respondi diretamente. - Gosto de ver o pôr do Sol com ela, ver o mundo seguir pelos nossos olhos. Compartilhar os detalhes das cores com ela.
A senhora então vira o rosto para nós, olhos miúdos, pele marcada pelo tempo. Um longo tempo. - E está disposto a perder isto por ela? Indagou.
- Sim claro. Respondi.
Então o silêncio. Longos instantes tomaram ares de horas. Então este foi quebrado. - Vos informarei somente o necessário pois os porquês e motivos das coisas não me pertence e pouco teria utilidade para vocês pois nunca fariam uso de tal por não compreenderem. Zilda continua: - O equilíbrio de tudo é simples e pode ser resumido em dois lados. Toda peça possui estes dois lados. A posição destas é quem determina o falado equilíbrio. Pode acontecer de algumas peças estarem fora de seu lugar. Quer sejam lançadas ou conscientemente postas lá. Quem o faz, o nome não posso pronunciar. Colocaram uma peça na cidade. A senti já ha algum tempo o que ela suga é o que poucos tem. O que sua amiga tem. Livre-se desta peça.
- Onde ela esta? Perguntei cheio de vontade e determinação. Mas a senhora já se recolhera ao seu misterioso sono. - Que peça é esta? onde está? Não houve resposta. Pedro questionou se daríamos importância ao acontecido. Mas a verdade é que não haviam mais tantas opções a se escolher. E em minha cabeça me questionava que peça fora do lugar seria essa. Revirei as roupas da Lucinha, todos os seus pertences fui buscar informações com suas amigas, revivi todo o seu dia a dia indo à feira, mercadinho, quitandas, casa de conhecidos até me sentar em um banco da pracinha e me acalmar. Pedro me consola com colocando o braço em volta de mim. e diz: - Nos resta rezar.
- A Igreja Pedro!
-Como?
- A Igreja, ainda não revistamos a igreja. Lucinha vai lá vários dias na semana!
- Revistar a igreja, você é louco? Não ouvi, já estava a caminho. Só me restava cometer pecados. Entrar pela janela da Igreja como ladrão e convencer meu amigo a fazer o mesmo. Nos sentamos nos bancos para examinar com calma o local. E então Pedro? Alguma coisa? - Não, nada. só tem o altar, os bancos e todos as esculturas de santos. Olhei para as esculturas. -E estes santos, conhece? Pedro olha atentamente. -Sim, claro, São Pedro, São João, São Cosme, Nossa senhora, o Padre Cícero e... Uma pausa. - O que foi Pedro? Ele olha atentamente uma escultura que segurava uma espada. e informa: -Creio que não conheço este aqui. E aponta. Saltamos da janela, os três. Eu, Pedro e a escultura enrolada em minha camisa. Vá Pedro, deixe que eu me encarrego do resto. -Nem em sonhos te deixo só. Então me seguiu pela estrada, noite adentro, ate não ter mais estrada, seguimos o rio, até não ter mais rio, na encosta da serra, nos limites das terras por nós conhecida atirei a imagem ribanceira abaixo que se fragmentou entre seixos e galhos de árvores. Cai no chão, por um momento meu sangue parou, senti falta de ar, minha cabeça tinha parado se foi minha audição, vi Pedro gesticulando, falando o que não se ouvia então a escuridão. Apalpo o chão, estou de joelhos. Grito por Pedro. _Onde está você? Onde esta? Aqui ao seu lado! Ele responde. Onde? não o vejo. Ele me toca, mas não o vejo.
Há dois anos que Lucinha esbanja vitalidade e alegria e isto devolveu a mim o querer das coisas. É fácil dar o nome de felicidade a isto. Todos os dias temos nosso encontro em nosso lugar na serra, ao fundo o pôr do Sol. Sinto seu calor que gradativamente se vai aos poucos e a falta das cores na minha eterna escuridão é perfeitamente preenchida pela voz da Lucinha que narra a tudo que acontece. Ela fala da andorinha que se perdeu do bando. Do homem próximo ao rio que tenta desatolar a roda da carroça de boi, estava cansado, limpou o suor na manga da camisa e ficou paralisado com o pôr só Sol. Me alerta para as nuvens que desenham no céu tudo que imaginarmos e eu fico montando estas imagens dentro de mim fazendo sempre o maior esforço para não me inebriar com a voz ao meu lado. As peças estão no lugar novamente.
RETORNANDO À ESTEPE (Somente para Loucos. Ou para quem tiver tempo de ler. Não ouse entender!)
Os que estão aqui ha muito tempo devem saber que já comentei sobre o Lobo da Estepe. Relembre aqui. Talvez o tenha feito poucas vezes em minha vida. mas hoje é o momento certo para externar algo que fez parte de mim ha tanto tempo. Não é desabafo muito menos revelação de algo que por ventura escondesse. Mas é preciso ter ciência de que as vezes o que não é revelado se deve à falta de compreensão daquele que o experiência. Sempre fui um rato de biblioteca em minha infância e adolescência. Em 1985 em uma manhã qualquer no intervalo das aulas regulares eu estava no primeiro andar do colégio Colepa em P.A. Bahia. Já tinha devorado a maioria dos livros nas fileiras onde minha altura alcançava, inclui-se ai as enciclopédias (minhas favoritas). Acima destas fileiras livros mais antigos, mais austeros, capas pretas, nomes talhados em dourado, dedilhei alguns e não me lembro bem o que me levou a tirar o que tinha o título "O Lobo da Estepe" de Hermam Hess. Não sei que edição era aquela, mas pela aparência do livro, pelo papel sedoso, amarelado e cheiro, poderia ser a primeira ou uma delas. Reformada por alguém que também deu valor à obra Confesso que aos quatorze anos não absorvi quase nada do que li, pulei algumas páginas à procura de gravuras até me deparar com o "Tratado do Lobo da Estepe", um aviso me chamou mais a atenção "Somente para Loucos". Li por completo. Privado de alguns entendimentos que so obteria a alguns anos dali, absorvi o que pude. O coloquei de volta. Corri para o término do intervalo das aulas. Não acredito muito em fatos predestinados, mas o certo é que eu encontrar aquele livro naquele ano , naquele momento me pareceu como que uma mensagem enviada. Mas fico por aqui para não me desviar. Digo de início que nunca fui leitor assíduo de escritores alemães, muito menos compartilho as mesmas afinidades do Hermam. Naquele momento e até hoje ele é para mim o criador da obra. E que, como ele mesmo revelou, cada um faz um entendimento e uso que desejar dela. Embora tenha revelado também que tal livro fora o mais mal entendido por todos. Tanto pelos críticos quanto leitores. Eu fui uma exceção. O Porque do livro ser importante? Não consigo dar uma palavra apropriada no momento. Entretanto imagino que pelo menos por algum momento ou em vários, nos questionamos sobre o certo o errado, o branco, o preto, porque isto e o porquê daquilo. Nas resposta que escolhemos para tais questionamentos é onde solidificamos e firmamos nosso caráter. Não, no livro não estará enumerada as resposta e muito menos estou aqui fazendo uma propaganda do mesmo, mesmo porque não é o desejado e o livro não precisa. Aliás este livro é uma simbologia, comigo foi ele, com você ou quem quer que seja pode ser uma pessoa, um objeto, uma luz ou o carnê vencido de alguma conta. Não importa o "corpo" que tome. Após as aulas de educação física eu corria para um dos pátios do colégio. me escondia entre as raízes de uma enorme cajazeira. Fazia de tudo para não adormecer de tanto aquilo ser agradável e me dar paz. O fazia escondido por motivos que a medida que ficamos mais velho aprendemos a contorná-los e enfrenta-los melhor. mas não naqueles idos. Não mesmo. Quando voltava para casa subia em um enorme pé de azeitona. Cercado de copa de árvore, que por sua vez era cercada por serras. Deitava no galho, lutava para não adormecer. Era o mais próximo que podia chegar de outra dimensão. Das raízes à copa das árvores. Um embate cruel se dava em mim. Homem ou Lobo? Minhas visitas à biblioteca agora tinham um novo programa. Sempre após o estudo, após a busca de novos livros eu ia na prateleira já bem conhecida ler "O Lobo da Estepe". Me dava prazer e aos poucos o embate se fazia mais claro, mais nítido. Mas o provável esclarecimento não estaria no amanhã. Seria necessário cavar a memória. mexer nos fatos acontecidos. Pulo de três anos para trás. À minha porta bate Nauzely. Mão ensangüentada, atrás dela um caminho vermelho. Tinha se ferido com uma peixeira, estava em choque, palma cortada de ponta a ponta, sangue deslizando pelo meu braço que a segurava, Em silêncio nos comunicávamos com os olhos. Fique calma (Embora eu estivesse com os meus neurônios a mil por hora se esbarrando um nos outros). Enrolei minha camisa em sua mão e dali mesmo saímos pela rua até o Hospital, a pé (não era perto) nada ao nosso redor existia. Nem os carros que passavam próximos, nem as pessoas que se questionavam. Nada. Até a chegada no hospital tudo estava claro para nós. Não havia cinza, não havia talvez muito menos o desgraçado do "e se" o que conversamos no caminho nos envolvia em uma espécie de invólucro. Era eu, a pessoa a quem ela mais confiava (Este fato narrado aqui é apenas uma das muitas provas) e ela a minha eterna melhor amiga. Naquele dia eu me desconheci, achei que tivera sido tocado por um anjo da guarda que tivera deixado seu papel comigo. Neste momento eu era homem? O Lobo adormecera? Deste dia pulamos agora um ano para trás. Último ano das guerras de rua que assolou a Fazenda em 1981. Três ruas se digladiavam, Rua Arari, Caxias e Maranhão. Em uma das batalhas, a qual ficou conhecida como "Batalha dos coqueiros" os meninos da Maranhão, tal qual catengas, se postaram nas copas dos coqueiros ignorando formiga preta e enchu de marimbondo, de lá atiravam de tudo. Bagens, goiaba podre, castanholas e quando desceram parecia elefantes raivosos. Era Aníbal colocando os romanos no bolso. Nós éramos os Romanos...Demorou para que eu notasse que a muito minha turma tinha partido em retirada. Eu estava cego com semente de goiaba no olho, não sabia quantos estavam me batendo. Em um determinado momento eu pensei: É agora, vou morrer. Já certo disto algo de mim se fez presente, não sei o que. Seria o Lobo? Mas pensei Ok, vou morrer, mas levo um comigo. Agarrei alguém pelo pescoço, derrubei no chão e bati até não conseguir levantar meus braços. Não vi nada da cena, mas ha muito já tinham parado de me bater. Ha muito tentavam me largar de minha "presa" me puxando pelo pescoço. Resumindo minha presa passou 15 dias internado, nunca mais conseguiu enxergar direito com o olho esquerdo e nunca mais me perdoou ou me dirigiu a palavra. Mais uma vez estava no hospital, durante todos os dias visitei seus corredores, não fui onde minha presa estava. Não havia como. na verdade estava com medo que ele morresse. Era naquele momento o mais fiel dos covardes. Tudo que pude fazer foi prometer que dali até o resto de meus dias nunca mais brigaria corpo a corpo com alguém. Eu tinha dez anos, imaginem o quanto foi difícil encarar esta promessa. Mas cumpri e venho cumprindo. O que a escola me ensinava eu ia comprovar em livros e mais livros. Tinha muita coisa errada. Não davam ouvidos a muita gente. A história era uma linha tendenciosa e a máxima que a guerra é contada apenas por quem vence estava valendo. Na verdade é tudo uma questão de comodidade. Imaginem lidar com todas as variáveis possíveis, imaginem levar em conta que o Pizon, ou alguns piratas sem nome ou navegadores perdidos tivessem aportado nas costas brasileiras bem antes de 1500. É apenas uma analogia, mas agora imaginem que você não cabe no conceito de apenas Homem e Lobo. Que na verdade habita em você o Leão, a águia, a enguia e toda sorte de ser tão maravilhoso quanto aquele do qual você faz uso. E que por obra da ignorância vivemos podando-o, prendendo-o e este so aparece quando suas garras dão algum deslize. Imagine que das muitas vezes que você fechou a cara ou se irritou com algo, na verdade estava prendendo um forma sua de se mostrar. de ser e de existir. Forma esta que te surpreendesse e quem sabe te engrandecesse tanto quanto a sofrida em uso. Suposições? Não. Não mesmo. Está em nós acredite. Nos fechamos em pequenos mundos, regamos valores que aos poucos perdem as origens, giramos no mesmo eixo em universos paralelos e fazemos acreditar que é aquilo o tudo e somente aquilo. Pagamos nossas contas, batemos nosso cartão da vida, sempre no mesmo horário e esta não é senão um espaço entre o que você sonhou e o dia em que verá as plantas pela raiz. E assim trancafiamos todo o Zoo que habita em nós. Então sou o nojento burguês que ouço Bach, Stravinsky, Wolfgang Amadeus, Blur, Link Park, Caetano Veloso, João Gilberto e ignoro o "Axé music" o sertanejo e as melodias de refrão absurdo e repetitivo onde mulheres mostram as ancas. Porque as ancas para mim soam grotesco, sem cultura e por mais que me incite eu renego, é baixo e lascivo é,enfim, o que eles disseram, dizem, dirão. Até que mudem e conseqüentemente, me mudem junto. Sou a religião do que foi crucificado ou então faço parte do Islã, cultuo Maomé e ignoro que este foi um missionário cristão, levanto as mão para Tupã ou danço ao sons dos tambores invocando voduns. Devoro arroz integral, barras de cereais ou me afogo em hamburgers gordurosos. Sou caridoso com aqueles a quem intimamente não me imaginaria igual. E se igual fosse não teria como fazer parte da "roda" de amigos do qual faço hoje pois não passo de um consumidor avaliado por um poder aquisitivo onde terei acesso a isso aqui e aquilo ali. E quando perco pontos os que me sorriem podem me presentear com indiferença, pois são poucos os animais que neles habitam. Quando nos damos conta estamos com tantas etiquetas, tantos adesivos de aperte aqui, puxe ali que nos vemos em dilemas pois temos apenas um homem e um Lobo para dar conta de tudo. E este tudo é grande demais, volumoso demais para se encaixar na diminuta variedade de Homem e muito menos faz parte do mundo do Lobo. E todo o resto de você ruge em desespero, almejando a chance de se mostrar, de ser, de vir. Abram as portas, gritam. Abram! Não sei ao certo se o fiz naquela biblioteca em 1985. Não sei. Certas coisas precisam de tempo. Existe os que vivem em paz apenas com o Homem, outros harmonizam-se também com o Lobo e alguns precisam de todos pois acharam a chave de suas portas.
Barulho de fogos, o Brou apagando velinhas. Pela TV (Eu liguei a TV!!!!) cenas do Rio de janeiro, Florianópolis, São Paulo, Maracaípe. Fomos para praia de Boa Viagem, no Recife, deu tempo de ver o Lenine no Palco dizendo "Obrigado, até mais...". Pra mim não fez falta. Mas teve as batidas de tambores. Ah isso TEVE! O ano raiando e o maracatu marcando presença, cena bonita. Primeira tela pintada de 2004, não faltou cores. Primárias, secundárias e terciárias, quente, vermelho, violeta. Tum, tum, tum; batiam os tambores. Dançávamos na areia. Doce liberdade de ser e estar. Que continue assim.
É minha última mensagem deste ano...São 21:25...Não gosto de despedidas, mas..TCHAU 2003, você já rendeu o que tinha. Ano que vem tem de bom o dom de ser novo e so por isso já se paga. O novo é cheio do que pode ser, cheio de esperança e so por isso já se paga. Não existe nada mais promissor do que uma tela em branco. Ela so não pode permanecer assim, podemos escolher tinta, pincel, a paisagem...2004, tela branquíssima...Deixa comigo....Abraços a todos que caminharam comigo neste ano....Ah, parabens a meu Brother..afinal hoje é o aniversário do escroto. Vamos à festa agora...
Ok, afora o velho gordo vestido de vermelho, afora o incentivo ao consumo, afora o capitalismo exacerbado, a falta similaridade de nossa cultura para uma festa nórdica afora todos esses lances que poderiam dar muita água para moinho girar em textos do tipo "Tudo isso é uma besteira" admito que sou humano. Louco, claro! Mas, humano. E se o mundo inteiro (ou boa parte ocidental dele) tem como costume reunir a família nesta data....Porque um Louco não pode dar uma de lúcido? De cair na onda? Deixar levar. Afinal é difícil reunir a trupe. Mas não impossível. Eles vieram. Não todos, claro. Mesmo que para uma passada breve, como o Pixmal ou para um forte abraço como a minha tia. Eles vieram. Não sou muito de colocar a foto da galera aqui, mas prometi. E também porque as imagens podem traduzir muito bem um clima, um espírito, uma vontade. Obrigado de coração a todos que deram votos natalinos, aos que ligaram, aos que enviaram cartões que enfeitaram minha árvore e até aos que deixaram recado e eu tive que ligar para trocentos números até encontra-lo. Não é 1985? Seu escroto! Ao Marcio que apareceu, digamos..tonto, não subiu nem para um drink nem nada, mas deixou seu recado. Aos meus amigos de Blog, Ao cara (Não sei o nome) que conserta aparelho de TV em uma loja da galeria da esquina, ele me abraçou no meio da rua e me desejou Feliz Natal, so nesta data mesmo...Feliz Natal porque todos viram bons loucos nesta data. E curtam as fotos. (Clicando-as)
Estava pensando como continuar este texto sem descaracterizar a fantasia e candura da época natalina, mas não dá. Papai Noel pra mim sempre foi uma incógnita. Pó um gordo vestido de vermelho com um gorro na cabeça que entrega presentes e mora no Pólo Norte? Para quem vivia fugindo de Boi Tatá, Perna cabeluda, Caipora e bambus repletos de sacis, um Gordinho bonzinho que vivia cruzando o céu num trenó puxado por veados (ninguém tinha idéia naquela época do que era uma Rena) era no mínimo bizarro. Mas não dava para escapar do cara, no natal a foto dele estava estampada em supermercados, livros, garrafa de refrigerantes, mas ele em pessoa; nada. Então, numa cidade grande, em um Shopping, no meio dos corredores, lá estava ele, o papai Noel. Fiquei nervoso. O que falar com a figura? Tive uma idéia, ficaria calado, e ele falaria primeiro e foi o que aconteceu.
"Olha, que menino bonito. O que você deseja de Natal?"
Eu estava parado, catatônico, olhos saltados e 678 pensamentos entrando em conflito na minha cabeça. Porque? Bem hoje posso explicar:
Sabe como é natal né? O Noel se multiplica, toda esquina tem um, toda loja quer ter o seu e tal. Daí que neste Shopping devia estar com uma escassez da figura e colocaram uma mulher no lugar, uma mulher volumosa de voz grossa parecia uma atleta russa, mas tinha um rosto gorducho e rosado. Após meu susto dei um sorriso e aceitei melhor aquela figura que tanto me intrigava. Espalhei para os quatro cantos que o Noel era uma Mulher barbada, que fugiu de um circo e ganhava a vida vestida de gnomo. O pessoal da fazenda gostou, ficou melhor de aceitar. Nosso folclore era meio espinhoso, não tinha muito lugar para açúcar. Mas eu so saquei que tudo aquilo era superficial nos momentos em que não tinha crianças para "atender" a testa daquela senhora suava, em alguns momentos ela perdia o olhar para absorver alguma preocupação qualquer, suspirava. Aquilo não podia ser encanto, era gente, de carne e osso. Mas ignorei, dei uma chance. Nunca é legal se desfazer de uma fantasia. Embora tenha continuado a busca nunca achei um saci. Achei melhor assim, afinal nunca se sabe o que se obtém quando uma fantasia toma forma.
Minha relação com o tempo é, na maioria das vezes, crítica. Entretanto me vejo mais como um admirador. Uma de suas maiores façanhas é de nos enganar. Por causa de seus efeitos todo o nosso mundo é uma eterna ilusão, vivemos no passado, e acreditamos piamente que somos parte do presente. O que vejo, o que presencio nada mais é do que o que a luz que recobre e molda as formas; quando esta luz chega aos meus olhos me revela algo que não existe mais na forma original. Sou alvo de uma ilusão. Um exemplo mais prático seria observar o Sol, o que vemos e a imagem dele ha oito minutos atrás, pois foi o tempo que a luz gastou para chegar ao nossos olhos. Com as pessoas, mesma coisa. O que conheço delas é o que recebo de emissão das mesmas, parte também do que recebo dos outros, mas podem muito bem não mais representar o que a pessoa é em si. O que observo é que, como seres sociais, seremos sempre aquilo que damos, que emitimos que trocamos e compartilhamos em um espaço de tempo que não nos é determinado, ou pelo menos não nos informam sobre isto. E quando nos formos, seja para o limbo ou para uma fila de reencarnação, o que ficara serão suas lembranças nas pessoas que você tocou e conviveu. Serão seus trabalhos, sua arte, seus esforços. As pessoas te perpetuarão, suas obras comunicarão a que você veio nesta breve passagem. E tudo isto terá que resistir a apenas uma coisa: o tempo. E quando ele vence (porque ele sempre vence) Você deixara de existir, sua passagem aqui não pode mais ser comprovada, pois os corações de quem você tocou já não mais existem, suas grandes obras viraram pó ou se perderam pelas novas tecnologias, você se tornará breves suspiros de existência quando alguém abrir um livro ou acessar algum arquivo onde conste alguma passagem sua neste mundo. De consolo sabemos que nesta passagem você foi peça importante na vida de várias pessoas e influiu em seu desenrolar. E assim por diante com os que virão depois. E, na grande mesa da existência, mexendo suas peças, nem rindo nem chorando...o tempo. Nos meus estudos para Algarobeira, fui a fundo na pesquisa da árvore genealógica de minha família, e foi bom saber como todos que já se foram estão tão vivos dentro de cada um que ainda paira por aqui. Tais como Cassemiro, Lika, Ulisses, Nozinho, mas quanto mais me distanciava no tempo, mais próximo ficava do terreno de sua vitória. Mostrava fotos, enviava por e-mail para parentes em outros estados e nada...aquelas faces não mais tinham nome, não mais tinham história, foram vencidas pelo tempo, na ordem natural das coisas. Fica em nossos corações suas expressões, suas formas estáticas e toda nossa emoção contida, amarrada por pessoas que não sabemos quem é, o que fez, mas que foram importantes, tiveram sonhos e objetivos. E nos vemos apegados ao que não existe mais. Apegados ao que a luz nos trás aos olhos, apegados a mais uma ilusão deste que tanto me intriga, o tempo.
Domingo passado (16/11) foi o aniversário de 50 anos de minha tia Neusa. A organização da festa foi feita pelos familiares, mais pela minha prima Luciana. Entretanto todos participaram de alguma forma. Seria uma reunião bem íntima, somente minha família e a de minha tia e assim foi. Em determinado momento da festa a sala foi "invadida" por umas trinta pessoas, eram do grupo da igreja que minha tia participa. Nós que fizemos a surpresa, fomos tomados por outra surpresa. Mas nada que abalasse a noite, aliás os novos personagens deram outro ritmo à festa. Pediram discurso, minha tia negou, então pediram discurso do Juca, o esposo. Dai cada parente foi perdendo a timidez e enfrentou a sala lotada para compartilhar com os outros o que minha tia representava. Na minha vez eu, diante daquelas pessoas a maioria desconhecida, me vi com palavras engasgadas na garganta e saiu apenas uma frase: Que ela era a minha segunda mãe. E olhei para ela para que visse meus olhos, esperava que ela entendesse tudo que eu queria falar mas que não foi dito. Ela sorriu, entendeu. Na vez da minha mãe, que é tímida aos desconhecidos, ela quase some no sofá ante o coro de todos para discursar, ela não foi. Minha mãe nunca gostou de palcos. E como são difíceis de se entender as pessoas que não gostam de palco. Era um momento mais que especial e oportuno para mostrar a todos o que aquela irmã representava para ela. Coisas que quem viveu os bastidores sabia muito bem. Mas minha mãe nada falou. Seu álibe era a timidez, mas ela nunca iria. A maioria dos integrantes do grupo da igreja discursou, foram lindas palavras, alguns com poemas que me deixaram orgulhoso de ser sobrinho daquela pessoa. Ao final minha tia agradeceu a todos e depois de longa pausa discursou sobre uma pessoa apenas: minha mãe. Naquele momento eu vi algo que a muito me falta presentear aos olhos e ouvidos. Pessoas que valorizam os bastidores. Venho sentindo a tempos saudades dos bastidores. Não é um lamento, longe disto. Afinal somos o conjunto de nossas escolhas, e as minhas sempre tiveram uma certa ponderação, mesmo que fossem vestidas com a total "porraloucura". Quando me sinto em um bastidor eu dou um nome: "Estou lavando a alma". O pior é que reclamar dos palcos te deixam com cem por cento de chance de ser tachado como um mal agradecido ou um cabeça dura que adora o contra. Estamos acostumados a aceitar o que geralmente não combina com a gente, os rituais do cotidiano tem uma força invisível que nos distancia de nosso eu verdadeiro. Você aceita todos os sorrisos amarelos no ambiente de trabalho, aceita os bom dias mecânicos, os bares xerocados com gente tagarelando e um pentelho num banco tocando uma lista chavão de MPB, aceita o circo da televisão e muitas notícias marchetadas da imprensa escrita, aceita se encontrar em um local onde não gostaria de estar naquele momento, mas é uma festa ou um evento importante, é algo único,onde todos estão e não faz sentido você não estar lá , afinal seu querer a muito não faz mais sentido. E é de se entender, chega um momento que é você contra o mundo e te dá um pá na cabeça tipo: "Cara, o errado so pode ser eu...estou na mão errada, sou aquele português reclamando de todos que estão no sentido contrário quando quem está na contra-mão sou eu" . E me vejo no desfile do Galo da Madrugada onde você quer ir para a esquerda, para a direita mas é levado para a frente por um milhão de pessoas, até chegar na avenida Guararapes onde todos querem que você chegue, onde está escrito que é para todos chegar. Daí você faz uma escolha de três:
1 - Caminhando e cantando e seguindo a canção.
2 - Caminhando e cantando e seguindo a canção, mas mantendo suas convicções, tentando não se poluir.
3 - Corre contra, sou dono do vento e do tempo.
Minha opção sempre foi a segunda. A idade é quem vem fazendo o veredicto, quando adolescente me achava covarde por não escolher a 3, ha um bom tempo meu veredicto é que sou sensato o que temo é que com esta tal da idade eu venha a pular para a opção 1. de qualquer forma me vejo chegando na Guararapes, onde todos que conheço estão chegando. (Opa, todos não. Desculpe. Alguns bailam neste desfile em todas as direções e nem mesmo sabem onde é a Guararapes).
Há duas semanas eu e a digníssima, irritados com as fotos de praxe que víamos nos álbuns (Com o famoso sorriso de foto) inventamos de nos flagrar em casa em momentos totalmente descontraídos. A foto acima é uma delas. Eu estava concentrado em frente ao computador, minha cabeça estava a mil, ali é meu bastidor. Tudo que saísse dali iria para o palco. Em muitas outras coisas, incluindo o BLOG, venho tentando fazer com que a distancia entre Palco e bastidores seja nula. Espero que consiga.
VIAJAR É PRECISO (PARTE II)
A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE
"...Mas se é espantoso pensar como tanta coisa sumiu, tantos guarda-roupas e camas e mucamas tantas e tantas saias, anáguas, sapatos dos mais variados modelos arrastados pelo ar junto com as nuvens, a isso responde a manhã que com suas muitas e azuis velocidades segue em frente alegre e sem memória..."
(Ferreira Gullar Poema Sujo - um fragmento: "Velocidades")
Enchi meu peito ao dizer que logo completaria quatorze anos, não era verdade. Acabara de completar treze. Estava chegando na adolescência e tinha nos olhos o caleidoscópio que faria jus à mais louca viagem do submarino amarelo e do "sargent pipper". Minha primeira viagem sozinho (Sem meus pais) começava ali, naquele ônibus lotado rumo a Itaparica, passar uns dias na Casa de meu colega de sala, o Júlio. Ao meu lado outro grande amigo o Ailson (Que apareceu aqui no Blog com o nick de Baiano), companheiro de tantas bizarrices que desenhariam um futuro tão incerto quanto meu juízo naqueles dias que se seguiriam. A senhora que me questionou sobre a idade tenta prosseguir assunto nem a ouço mais. Se ela tivesse um leve noção da batalha que meus neurônios estavam travando, e perdendo, contra meus hormônios saberia na tala que a viagem so tinha um propósito: o sexo. Isto mesmo, sem arrodeios, sem papo nem cobertura de bolo. Era sexo na palavra escrita, pronunciada e, jamais feita. Se um adulto (normal) pensa em sexo a cada 4 minutos, um adolescente (normal) pensa em sexo 61 segundos por minuto. Itaparica não me mostrou nada de novo para quem queria desbravar um mundo até então desconhecido; grupinhos de gente ansiando por nos fazer "por fora", clubes , bares, supermercados...Tudo igual às coisas das quais "fugimos" horas atrás. O Júlio se transformaria na Alice aos nos informar sobre o país das maravilhas. Vamos para Petrolândia, disse ele. Petro o que? Petrolandia galera, é a cidade das mulheres. Não era necessário falar mais nenhum ponto turístico, Petrolandia se tornou o porto aonde todos querem chegar. Chegamos, e então a falta de uma certa sinfonia nunca antes tocada em minha mente deixou de existir, e seus acordes, suas notas se transformaram nas formas que abençoaram minha vista. Quebra cabeça de panos coloridos estendidos ao Sol, ondulando ao vento, toureando pivetes travessos que brincavam entre os varais, senhoras de vestidos floridos ensinando sorrisos debruçadas na janela, senhor de pele idosa sintonizando rádio AM com astúcia de quem é bem maior do que o mundo que lhe trás notícias. Venda de cimento batido com mesas da idade do tempo, balcão que escorou história. Foi quando descobri que as cidades ostentam uma alma. Comemoramos bebendo uma pinga local que nos presenteou com o álibi de nos roubar um juízo que nunca chegamos a ter. Estávamos prontos para a festa logo à noite. A cidade se vestiu de luz e centenas de anjos de vestido de chita iam e vinham em cochichos ao pé do ouvido, eu e o Júlio nos acostumamos à roupa nova e ao perfume forte. Mais experiente e com cara de maturidade o Júlio seria meu mentor, nos postamos em um bar redondo, fechado e escuro. Conhecemos duas garotas, ensaiamos conversas sem sentido, destas que preenchem o tempo, se quisessem saber o que queríamos bastava olhar em nossos olhos. Então falta energia em toda a cidade, saímos do bar levados pelas garotas, nem pagamos a conta, ziguezaguiamos pelo escuro, rindo, o Júlio berrava as coisas mais insanas, as garotas riam, a luz nos tirava uma liberdade, sem ela estávamos despidos de culpa, a cidade era nossa. Não posso precisar onde paramos mas foi por causa dos beijos, aprendi a não respirar, existia algo mais essencial que aquilo. Me escorei em uma árvore, nem o cheiro forte de cigarro da menina me incitou algum levante de repulsa, eu estava totalmente dado. Apenas e simplesmente queria. Minha inocência acabava de ser extraída, colocada em uma cabaça, selada com cera de Arapuá e enterrada para maceração qual licor de Jenipapo. Desfaleci, acordei com o Júlio dizendo que as meninas sumiram, estava com frio, levaram minha Jaqueta, Julio ria sem parar, foi quando me dei conta. Onde deixamos o Ailson? Me abracei ao Júlio, nos equilibramos para uma caminhada na melhor linha reta, revelei para ele que nunca casaria em minha vida.O Júlio me informava que eu era a forma original dos cafajestes, ríamos. Caminhamos sem destino, sem luz, sem conhecer o caminho sentamos no que parecia um barzinho de beira de estrada. Amanhecemos o dia namorando a cidade que dormiu aos nossos pés. Quero viver viajando, revelei ao Júlio. Ele informou que isso não era vida. E o que é então? Perguntei de volta. O silêncio chega.... Ainda não tínhamos a resposta, éramos muito jovens. O Ailson nos acha com o coração na mão, tinha dado a palavra aos meus pais que tomaria conta de mim, não veio conosco porque não queria se "poluir" estava se preparando para entrar no seminário naquele ano, queria ser padre. Mais tarde desistiria do seminário ante o padre querendo estrupá-lo. Devia ter se poluído com a gente. Comecei então a não sacrificar o presente por um futuro incerto. Tudo era incerto naqueles tempos, mesmo assim arrisquei uma meditação que vinha do meu coração. logo voltaríamos deixando para tr´[as aquela cidade mágica. Moldada na simplicidade das coisas, feita para ser bela por simplesmente ser. Foi ai que meditei: Lá fora o tempo corre, atropela a tudo, parece nos fazer perdê-lo a todo momento, e aqui somos dono dele, creio que ai reside o segredo desta cidade não sucumbir ao sistema. Anos depois nós três voltamos para a mesma cidade, em seu lugar nada além de um enorme lago, toda uma cidade desaparecera, não havia vestígios, se tornara a Atlântida do Nordeste. Era necessário para a Hidroelétrica de Itaparica. Em seu lugar fora construída a Nova petrolândia, feita na régua, chão de cascalho, maquete gigante, esqueceram a alma embaixo do lago. Éramos muito jovens, começamos a perceber a fina linha que separa o certo do errado.
"...A contenteza do triste
Tristezura do contente
Vozes de faca cortando
Como o riso da serpente
São sons de sins, não, contudo
Pé quebrado, veso mudo
Grito no hospital da gente"
BÉRADÊRO
(Chico Cesar)
VIAJAR É PRECISO O viajante é a pessoa que mais adora ficar em casa andando por ela porque sua casa é o mundo
Agora sei que so me encontro quando me distancio. Viajar é preciso. Eu tenho uma idéia do viajante, este personagem que sempre nos parece ter asas. O verdadeiro não parte para os lugares devido a uma fuga ou um mal estar do local de onde se encontra pois deve saber que a verdadeira viagem reside dentro dele. Não necessita nem sair do local de onde está para viajar pois muitas prisões podem detê-lo e isto não deve lhe tirar a estirpe. Não deve ser confundido pelos que administram alguns dias para receber mais Sol ou fazer algo que se lembre no futuro e ao mesmo tempo não se desgarram do seu cotidiano. Talvez ele deva ser fiel apenas o que vê pela frente, saber que o que vê passara ao seu lado para dar lugar ao que vem mais à frente, e raramente irá olhar para trás. O viajante sofre mais pois não tem o acalento da segurança para doar, tudo nele balança. Todos nós um dia fomos nômades, aprendemos a domar o fogo, a cultivar a terra e, como as plantas, termos raízes. Estamos quietos, mas somos viajantes.
Deixou pessoas contemplando, paradas, meditando. O mural criou vida, refletia pessoa, sentimentos, momentos, vida...Falava, falava e muito. Ainda hoje tenho ouvidos para ele.
Esta foto acima faz parte do filme que revelei a pouco. Ela estava guardada com outras, esquecida. Esta foto tem exatos 3 anos. Vejam que a Manuela ainda carrega meu sobrinho em seu ventre sobrinho completa três gora dia 20 de outubro. O Local da foto é o meu querido quarto. Na época eu morava apenas com minha mãe. Tudo ao redor é o que chamei de MURAL. Nunca gostei do branco, da tal da ausência de todas as cores, é um saco. Todos os meus quartos tinham a parede branca, até eu chegar. O Mural começou com apenas uma foto. Era uma foto da janela de um carro em movimento. Depois coloquei mais uma, meu irmão me ajudou com algumas fotos de Surf dele, então coloquei algumas mensagens que ganhei de amigos, depois coloquei cartões de aniversário, alguns desenhos que fiz, fotos de namoradas, recortes de jornais, depois recortes de revistas. Quando vi já tinha tomado a parede inteira. Foi quando percebi que haviam mais três paredes...Deixei minha imaginação correr, colocava tudo que vinha à mente, relógio quebrado, Cardápios de bares (Meu Hobby era "pegar emprestado" cardápios de bares), Placas de computador, disquetes. Mas não foi apenas eu. Meus amigos quando vinham ao quarto antes de mais nada passavam horas a olhar a tudo e começaram a trazer as coisas deles também, as fotos, objetos etc...Já não era mais meu. O Mural era de todos, cada um contribuía com algo e até mesmo eu quando chegava do trabalho ia checar as novidades, então vieram as pixações, as dedicatórias de todos, os banhos de cerveja, os cartões de 1985. So faltava o teto...So faltava, este foi o próximo alvo, no teto ficariam grandes fotos que quando ao dormir eu sempre olhasse para elas. Dezenas de fotos foram tiradas no mural, digamos que ele era o ponto turístico da minha casa, quem não conhecia o mural, quem ainda não tinha tirado uma foto no mural...não conhecia o Louco. A foto acima foi uma das últimas do Mural, todos eram unânimes em dizer que ele não fosse retirado. Mas este dia chegou, com ajuda de dois amigos meus (Léo e Marcio) gastamos um dia inteiro para retirar o mural, não me desfiz de algumas fotos e algumas lembranças, era impossível pois em determinados recortes as pessoas tinham colocado seu coração no papel, eram textos da mais pura demonstração de amizade. Eu os guardei e ainda os tenho. Uma amiga minha uma vez me perguntou como foi o início, o que levou a colocar a primeira foto. Eu disse que não estava mais pintando quadros, a tempo nunca mais tinha tocado no nanquim para desenhar algo, começava a não ter mais tempo para as coisas. O MURAL era o reflexo do que acontecia dentro de mim, a arte corre no meu sangue, como não viu escape,estourava em forma variadas, salpicando fotos aqui, sentimentos ali, criando murais.
MEUS BONECOS DE PANO A loja se chamava Banguê, fica na ala norte da Casa da Cultura. Perguntei à moça que atendia: "E aqueles bonequinhos de pano, vocês tem? Ela respondeu: "De monte, tá cheio! Tudo quanto é cor, a maior diversidade". Foi então que decidi fotografá-los.
Não sei se vocês (os que estão sempre aqui) se lembram do concurso de fotos que eu participei (National Geographic). Em duas etapas, uma nacional e outra mundial. Pois é ontem recebi um e-mail de Londres informando que minha foto está na finalíssima da etapa mundial.O julgamento final será na Sexta próxima (03/10). A Final da Etapa Brasil será 17/10. Fiquei contente pra caramba, a foto que selecionei para a etapa mundial foi a de vários bonecos de pano de todas as cores. O tema é Diversidade. Para a etapa Brasil mandei uma fotos de peixes de várias tipos juntos. A foto da etapa mundial eu consegui passando o dia na Casa da Cultura. E a da etapa Brasil consegui no centro da cidade, ficando quase duas horas de cócoras em frente a aquários, uma das fotos mais difíceis q